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Estas páginas tem por objetivo exibir o trabalho que venho desenvolvendo com estudantes do Ensino Fundamental e Ensino Médio, desde de 2005. Optei por exibir e prestigiar, nas matérias publicadas, produções artísticas coletivas. A escolha pela utilização de materiais menos “nobres” e sua transformação no processo de produção artística é uma das principais características das atividades propostas por mim. De maneira criativa e inusitada enfrentamos o problema: conseguir MAIS com MENOS. Como resultado, apresento o trabalho dos estudantes e mostro que é possível fazer arte de alta qualidade, com recursos materiais e didático-visuais mínimos. Muito obrigada pela visita.
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4 de out de 2008

Duchamp desconstruído

Durante a exposição Marcel Duchamp: uma obra que não é uma “obra de arte”, realizada entre julho e setembro de 2008, no Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM SP, atuei como educadora nas visitas guiadas e atendi a estudantes de 7ª e 8ª séries, vindos de escolas estaduais de São Paulo. Apresento a seguir a atividade prática denominada "Duchamp desconstruido", criada por mim, aceita pelo educativo do museu, proposta aos estudantes da EE Raul Cortes, após a visita.

Objetivo
Tal qual Duchamp fez quando questionou o valor e a idéia que se tinha de obra de arte no início do século XX, ao colocar os Ready-mades, o objetivo desta atividade é demonstrar de modo prático, o funcionamento desses mecanismos (conceito) de dessacralização propostos, através de intervenções sobre reproduções de algumas de suas principais obras como L.H.O.O.Q. (A Monalisa), Fonte e A noiva despida por seus celibatários, mesmo (ou O grande vidro). Assim, dessacralizar também a imagem de “artista genial”, que hoje lhe atribuímos, criador de obras de grande valor para contemporaneidade.

Argumento prévio para o desenvolvimento da atividade
Na perspectiva conceitual, proposta por Duchamp, a arte deixa de ser a materialização de um quadro ou escultura - de conteúdo estético tal como formas, cores, interpretações da realidade, maneira ou estilo - para transformar-se na concepção que o artista tem da obra de arte. Visto assim, fraco de vidro lacrado é O Ar de Paris, mictório é Fonte, porta-casacos colocado no chão é Armadilha.Quando o objeto é reconhecível como estético - obra prima da história da arte na modernidade - como a Monalisa, “pintura-mito” feita pelo “gênio-mito” Leonardo da Vinci, Duchamp compra cartões impressos com imagem; desenha-lhe bigode e cavanhaque e acrescen­ta-lhe um novo título L.H.O.O.Q.*. Com o gesto, transforma-a em ready-made, a nova categoria de artes criada por ele.Assim desloca o seu valor estético e a dessacraliza - não o retrato, mas da própria arte, desembaraçada de seu brilho (aura).
Há, de fato, ruptura entre a arte que se fazia antes daquela proposta por Marcel Duchamp e aquilo que se faz hoje. Mesmo em meio ao 'moderno', ele nos proporcionou trabalhos que permitiram-nos considerá-lo o precursor da arte contemporânea. E, por conseqüência, junto com sua obra, sacralizou-se também; a ponto de nos referirmos a ele como “artista genial”, criador de “obras geniais”.

Material
Lápis de cor, canetas coloridas, imagens de revistas, cola, tesoura e xerox colorido no formato A4 das seguintes obras: LHOOQ, Fonte, O Grande Vidro (Parte 1: Domínio da Noiva e parte 2: Domínio dos Celibatários)

Metodologia
Todas as cópias foram misturadas e colocadas dentro de um envelope, de onde os estudantes retiraram, ao acaso, uma imagem-obra de Duchamp, e sobre a qual tiveram liberdade para interferir, limitados apenas pelos materiais disponíveis. Ao final pediu-se que dessem um novo título e que assinassem o trabalho, transformando, asim, a obra de Duchamp em uma outra obra de arte, nova, a feita pelo estudante.


Veja alguns dos resultados obtidos
T
ítulo 1: Mulher ao Contrario
Título 2: Frida Lisa
Trabalhos feitos em cima da reprodução da obra L.H.O.O.Q (a Monalisa)

Título 3: Mulher perfumada industrialmente
Título 4: Dia-a-dia de sempre, menos aos sábados
Trabalhos feitos em cima
da reprodução da obra A noiva despida por seus celibatários, mesmo. Ou Grande Vidro.

Nota: * L.H.O.O.Q. quando lidas as letras em seqüência, em francês traduz-se a frase obscena Ela tem fogo no Rabo.